Âncora

  • O Pai e os Filhos Perdidos

    Peter Amsterdam

    [The Father and the Lost Sons]

    Certo homem tinha dois filhos. O mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me pertence. E o pai repartiu os bens entre os dois. Poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua.[1]

    O pedido extraordinário feito pelo rapaz certamente chocou e escandalizou os que ouviram a história em primeira mão. Pediu para receber sua parte da herança que normalmente receberia quando o pai morresse, enquanto este ainda estava vivo e com saúde. Sua atitude se traduzia essencialmente em um rompimento da relação com o pai. A expectativa de quem ouvia a parábola era ouvir Jesus contar como o pai havia explodido em ira e castigado o filho.

    Contudo, o pai aquiesceu e dividiu a propriedade entre os seus dois herdeiros. O filho caçula queria converter o imóvel em dinheiro. Com isso, demonstrava não ter nenhuma consideração pelo futuro do pai e privava-o de uma parte da produção da terra que a este caberia por direito na velhice.

    O mais velho, que também teria recebido sua parte da herança na época, passou a ter a posse do restante da propriedade, mas não o seu controle. O pai permanece como chefe dos bens da família e dono da produção da terra, o que a história deixa claro quando, mais à frente, o pai diz ao primogênito: Todas as minhas coisas são tuas — já que teria posse e controle de tudo que pertencia ao pai quando este morresse.

    As desditas do filho mais jovem

    Jesus então conta o que acontece ao segundo filho: Poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente. Tendo ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a padecer necessidades.[2]

    Ao sair de casa, o filho mais jovem se viu livre para viver de uma forma que pode ser descrita como libertina e inconsequente, o que o levou a perder tudo que possuía.

    Então ele foi e se chegou a um dos cidadãos daquela terra, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos. Ele desejava encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhe dava nada.[3]

    Quem ouviu a história em primeira mão tinha a dimensão da degradação que sofrera a vida do rapaz, ao aceitar o trabalho de alimentar porcos. Esses animais eram considerados impuros pelas leis mosaicas e escritos judaicos posteriores declaravam amaldiçoado todo criador de suínos. Para piorar a situação, a fome do jovem era tal que ele passou a comer o que era dado aos porcos. E foi então que “caiu em si”.

    Então, caindo em si, disse: “Quantos trabalhadores de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: ‘Pai, pequei contra o céu e perante ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus trabalhadores.’”[4]

    O filho teve um choque de realidade  Decidiu voltar para o pai, admitir seu erro e pecado. Ao se lembrar de que os “trabalhadores” de seu pai tinham abundância de mantimentos, planejou pedir ao pai que o tratasse como um servo contratado. Ele não teria mais a condição de filho. Ao planejar o que diria ao pai, o jovem incluiu uma confissão de culpa: “Pequei”; admite que destruíra o relacionamento com o pai: “Não sou digno de ser chamado teu filho”; e sugere uma solução: “Faze-me como um dos teus trabalhadores”.

    O retorno

    “Então, levantando-se, foi para seu pai. Quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. O filho lhe disse: ‘Pai, pequei contra o céu e perante ti, já não sou digno de ser chamado teu filho.”[5]

    O filho envergonhara o pai diante de toda a comunidade. Seria justificável que este o deixasse o vir até ele, passando antes pela vila sob os olhares de reprovação da população. Não foi o que fez. Cheio de compaixão, apressou-se em direção ao filho, algo que um homem de idade com boa posição social jamais faria em público. Para isso, teve de levantar as vestes e expor as pernas, algo considerado vergonhoso na cultura da época. A primeira coisa que o pai fez for abraçar e beijar o filho, antes mesmo que este tivesse a chance de falar o que havia preparado

    O filho lhe disse: ‘Pai, pequei contra o céu e perante ti, já não sou digno de ser chamado teu filho.’ Mas o pai disse aos seus servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-o com ela, e ponde-lhe um anel na mão, e sandálias nos pés.’[6]

    O filho começa a dizer o que havia ensaiado, mas o pai não lhe permite terminar. Ao ouvi-lo se dizer indigno de ser chamado filho, o pai não o deixa prosseguir. Dá ordem aos servos para lhe cingirem com as melhores vestes, colocarem um anel no seu dedo e sapatos nos pés. Com essas ações, o pai deu a mensagem de que se reconciliara com o filho.

    Além de dar essa mensagem aos servos e à comunidade, o homem expressou algo poderoso ao filho: o perdão. As boas-vindas que recebeu foi um ato de graça não merecida. Foi perdão. Não havia nada que o rapaz pudesse fazer para remediar o passado. O pai não queria o dinheiro perdido, mas o filho perdido.

    “Trazei o bezerro cevado, e matai-o. Comamos, e alegremo-nos.”[7] Cozinhar um animal tão grande para uma celebração indicava que toda a vila ou pelo menos a maioria dos seus habitantes seria convidada para a festa. E o pai, cheio de alegria, exclamou: “Pois este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado.” E começaram a alegrar-se.[8]

    O filho mais velho

    O filho mais velho estava no campo. Quando voltou, e chegou perto de casa, ouviu a música e as danças. Chamando um dos criados, perguntou-lhe o que era aquilo. Ele lhe disse: ‘Veio teu irmão, e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo.’ Mas ele se indignou, e não queria entrar.[9]

    No fim do dia de trabalho, o filho mais velho voltou do campo depois que as festividades haviam começado. Quando soube o que celebravam e que seu pai acolhera o filho mais novo em casa de braços abertos, o mais velho ficou furioso. Em eventos assim, o costume era que o filho mais velho circulasse entre os convidados, como parte das responsabilidades de anfitrião que compartilhava com o pai. Mas em vez de cumprir o protocolo, o homem publicamente se recusa entrar em casa, participar das festividades e discute com o pai em público.

    Então, saindo o pai, instava com ele. Mas ele respondeu a seu pai: “Olha, sirvo-te há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos. Vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o bezerro cevado!”[10]

    Mesmo correndo o risco de ser humilhado e envergonhado diante dos convidados, o pai sai da festa para tentar convencer o filho a celebrar com todos. A reação do rapaz vem carregada de desrespeito, rancor, ressentimento e da verdade de como vê sua própria relação com o pai.

    Como o pai reage? Trata o mais velho da mesma forma que recebeu o mais jovem: com amor, bondade e misericórdia. Ele diz: “Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas.[11]

    O relacionamento com o filho mais velho também não é bom e isso é algo que o pai quer corrigir. Os dois filhos precisam de reconciliação e restauração com o pai e recebem dele o mesmo amor, amor que lhes é dado em humildade.

    A última frase do pai expressa sua alegria pelo filho mais novo que estava perdido e foi encontrado. “Era justo alegrarmo-nos e folgarmos, porque este teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado.[12] Fica no ar a pergunta se o irmão mais velho que também estava perdido teria sido encontrado e restaurado, pois a narrativa não inclui sua reação.

    Esta parábola nos ensina algo belo sobre Deus, nosso Pai. Ele é pleno de compaixão, graça, amor e misericórdia. Como o pai na história, Ele nos permite fazer nossas próprias decisões e, independentemente de onde essas escolhas nos levem, Ele nos ama. Seu desejo é que cada um que se desencaminhou, que está perdido, cujo relacionamento com Ele está ruim, venha para casa. Ele espera por eles e os acolhe com grande alegria e celebração.

    Essa é a atitude de Deus para cada pessoa. Ele ama profundamente e deseja ter um relacionamento forte e estável com cada um. Busca os perdidos e grandemente Se regozija com cada um que volta para casa. Recebe-os de braços abertos, não importa quem sejam ou o que tenham feito. Ele perdoa, ama e acolhe. Como diz o antigo hino “Vem já, vem já! Alma cansada, vem já.”

    Cada pessoa é profundamente amada pelo Pai. Jesus deu a vida por todos e cada um. Somos chamados para levar essa notícia para os outros e, para isso, a exemplo do que fez Jesus, devemos buscá-los, fazer um esforço para alcançá-los, dar-lhes a mensagem que Deus os ama e quer ter um relacionamento com eles. Deus é amor, graça e misericórdia. Ele ama cada pessoa e nos chamou para, como Seus representantes, mostrar amor incondicional, amar o desagradável e buscar os perdidos, ajudar a restaurá-los e responder com alegria e celebração quando o perdido é encontrado.

    Publicado originalmente em janeiro de 2015. Editado e republicado em janeiro de 2020.


    [1] Lucas 15:11–13. Todas as referências às Escrituras foram extraídas da “Bíblia Sagrada” — Tradução de João Ferreira de Almeida — Edição Contemporânea, Copyright © 1990, por Editora Vida.

    [2] Lucas 15:13–14.

    [3] Lucas 15:15–16.

    [4] Lucas 15:17–19.

    [5] Lucas 15:20–21.

    [6] Lucas 15:21–22.

    [7] Lucas 15:23.

    [8] Lucas 15:24.

    [9] Lucas 15:25–28.

    [10] Lucas 15:28–30.

    [11] Lucas 15:31.

    [12] Lucas 15:32.

     

  • Jan 16 Alcance o seu Potencial—2ª Parte
  • Jan 15 Modestos Começos
  • Jan 14 Vencer o Mal com o Bem
  • Jan 9 Alcance o seu Potencial—1ª Parte
  • Jan 7 Deus não Se Envergonha de Ser chamado Nosso Deus
  • Jan 3 Forças para um novo ano
  • Dez 31 Um Desafio de Ano Novo
  • Dez 27 Entendendo o seu Propósito
  • Dez 26 Esperança e Auxílio para o Novo Ano
   

Espaço dos Diretores

  • Jesus — Sua Vida e Mensagem: A Festa dos Tabernáculos (7ª Parte)

    [Jesus—His Life and Message: The Feast of Tabernacles (Part 7)]

    (Este é o último artigo da série “A Festa dos Tabernáculos”. Os anteriores foram publicados em meados de 2019.)

    No fim do artigo anterior, Jesus afirma aos judeus que O ouviam que não eram filhos de Abraão como reivindicavam ser.

    “Responderam eles: Nosso pai é Abraão. Disse-lhes Jesus: Se fôsseis filhos de Abraão, praticaríeis as obras de Abraão. Mas procurais matar-Me, homem que vos disse a verdade que de Deus ouviu. Abraão não fez isso.”[1]

    “Vós fazeis as obras de vosso pai. Protestaram eles: Nós não somos filhos ilegítimos. Temos um pai que é Deus. Disse-lhes Jesus: Se Deus fosse o vosso pai, vós Me amaríeis, pois Eu vim de Deus e aqui estou. Não vim por Mim mesmo, mas foi Ele que Me enviou.”[2]

    Ele então perguntou:

    Por que não entendeis a Minha linguagem? Porque não podeis ouvir a Minha palavra.[3]

    Jesus perguntou e depois respondeu à própria pergunta. Eles não compreendiam o sentido espiritual do que Ele estava ensinando porque não tinham o entendimento de quem Ele era ou do que representava. Como lhes havia dito anteriormente neste capítulo:

    Vós sois de baixo; Eu sou de cima. Vós sois deste mundo; Eu não sou deste mundo.[4]

    Eles clamavam que Deus era o Pai deles, porém Jesus lhes disse: Se Deus fosse o vosso pai, vós Me amaríeis, pois Eu vim de Deus[5]. Como eles não conheciam Deus verdadeiramente, não compreendiam o que Jesus falava.

    Jesus então declarou com veemência quem era o verdadeiro pai deles.

    Vós pertenceis ao vosso pai, o diabo, e quereis executar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, pois não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, pois é mentiroso e pai da mentira.[6]

    Em contradição direta à declaração temos um Pai, Deus, Jesus afirmou explicitamente que tinham como pai o diabo. Na sequência, disse que o desejo deles era realizar os desejos de seu pai. Escolheram voluntariamente fazer a vontade de Satanás. Jesus contrastou esse relacionamento com o que dissera de Seu Pai, registrado anteriormente no capítulo, o Pai que Me enviou,[7] a Minha outra testemunha é o Pai que me enviou,[8] o Pai Me ensinou.[9]

    Por outro lado, os desejos e ações dos fariseus estavam alinhados com os do diabo. Ele era um homicida desde o começo. Jesus pode estar Se referindo ao assassinato de Abel no capítulo quatro de Gênesis, mas é mais provável que estivesse Se referindo ao papel de Satanás em tentar Adão a desobedecer a Deus, o que resultou em toda a humanidade se tornar mortal e, portanto, sofrer a morte. Ele continuou falando do pai deles, o diabo, afirmando que ele não tem nada a ver com a verdade, porque não há verdade nele. A verdade está associada a Deus e a Jesus. Satanás não está interessado em Deus ou na verdade. Ele é o pai da mentira.

    Contudo, porque vos digo a verdade, não credes em Mim.[10]

    Jesus foi enfático com os judeus “crentes”, afirmando que não eram filhos de Deus, não amavam o mensageiro de Deus (v. 42), não O entendiam nem podiam ouvir Sua palavra (v. 43). Foi claro ao dizer que eram incrédulos. E, como filhos do diabo, estavam inclinados a acreditar nas mentiras dele, em vez de na verdade de Deus.

    Pode algum de vós acusar-Me de pecado? Se vos digo a verdade, por que não credes em Mim? Quem pertence a Deus ouve as palavras de Deus. O motivo por que não ouvis é que não pertenceis a Deus.[11]

    Jesus fez aos acusadores duas perguntas. A primeira foi em referência ao pecado. Nesse caso, não Se referia ao pecado em geral, mas aos eventos que tinham acabado de acontecer. Ele já havia afirmado falar a verdade (v. 45), portanto, ao não crer nEle, eles estavam na verdade chamando-O de mentiroso. Jesus os desafiou a provar isso, perguntando quem poderia condená-lO pelo pecado, sabendo que nenhum deles poderia fazê-lo.

    Jesus fez nova pergunta e também a essa respondeu: Se Eu falo a verdade, porque não acreditam? Ele declarou explicitamente a razão pela qual eles não acreditaram nEle: não eram de Deus. Isso ecoava outras partes do Evangelho segundo João: não “nasceram de novo”[12] ou “nascido de Deus”[13] ou com o direito de chamar Deus de “Pai”.[14] Como não eram de Deus, eram incapazes de ouvir Sua palavra, o que significa que não podiam reconhecer as palavras de Jesus como palavras de Deus.

    Os oponentes de Jesus começaram a acusá-lO falsamente, como o pai deles, o diabo.

    Responderam os judeus: Não temos razão em dizer que és samaritano, e que estás possesso de demônio?[15]

    Eles estavam errados ao dizer que Jesus era um samaritano. No início deste Evangelho, ficou bastante claro para a samaritana com quem Jesus conversou à beira do poço que Ele era judeu.

    Disse-Lhe a mulher samaritana: Como, sendo Tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? (Pois os judeus não se dão com os samaritanos.)[16]

    Os acusadores de Jesus apenas O chamavam de samaritano para O difamar, pois, em geral, os judeus desprezavam os samaritanos por causa de sua reputação secular de adorar muitos deuses.[17] O próprio Jesus disse: Vós, os samaritanos, adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus.[18]

    Disse Jesus “Eu não estou possesso de demônio, mas honro a Meu Pai, e vós Me desonrais.[19]

    Jesus repudiou a acusação falsa de ter um demônio e, em seguida, contra-atacou apontando que, embora Ele honrasse Seu Pai, eles O desonravam. No início deste Evangelho, Jesus afirmou que: “Quem não honra o Filho não honra o Pai que O enviou”.[20] Ao desonrá-lO, eles estavam desonrando a Deus, que reivindicaram como seu “único Pai”.[21]

    Eu não busco a Minha própria glória; há quem a busca, e ele é o juiz.[22]

    Ao esclarecer que não buscava glória própria, Jesus sugeriu que Seus acusadores o faziam, o que também havia dito a alguns de Seus oponentes no início deste Evangelho.

    Como podeis crer, recebendo glória uns dos outros, mas não vos esforçando por obter a glória que vem do único Deus?23

    Jesus apenas buscou a glória do Pai. Ele também disse: Quem fala de si mesmo busca a sua própria glória, mas o que busca a glória dAquele que O enviou, esse é verdadeiro, e não há nEle injustiça.[24]

    Em verdade, em verdade vos digo que se alguém guardar a Minha palavra, jamais verá a morte.[25]

    Jesus afirmou enfaticamente que aqueles que guardam a Sua palavra, que significa toda a mensagem de Jesus, não morrerão. Ele não estava dizendo que aqueles que acreditam não experimentarão a morte física, mas que não experimentarão a morte espiritual, condenação eterna. Ele deixou isso claro mais adiante neste Evangelho quando disse a Marta: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em Mim, nunca morrerá. Crês isto?[26]

    Aqueles que O ouviram interpretaram Suas palavras de forma literal.

    Disseram os judeus: Agora sabemos que estás possesso de demônio. Morreu Abraão e também os profetas, e Tu dizes que se alguém guardar a tua palavra, jamais provará a morte. És Tu maior do que o nosso pai Abraão? Ele morreu e também os profetas. Quem pensas que és?[27]

    Seus ouvintes judeus estavam convencidos de que Suas declarações anteriores estavam agora comprovadas, pois aos seus olhos apenas alguém que tivesse um demônio poderia fazer tais declarações. Abraão, o pai do povo judeu e o pai da fé, havia morrido, assim como todos os profetas que foram enviados de Deus a Israel. Os ouvintes de Jesus entenderam que Ele prometia vida eterna, quando apenas alguém com poderes sobre-humanos —a saber Deus— era capaz de libertar alguém da morte. Perguntaram quem Jesus estava sugerindo ser —apesar de saberem a resposta.

    Ao longo deste Evangelho, os líderes religiosos entenderam que, pela maneira como falava, Jesus alegava ser o Filho de Deus.

    Por este motivo os judeus ainda mais procuravam matá-lO; não só quebrava o sábado, mas também dizia que Deus era Seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus.[28]

    Responderam os judeus: Não te apedrejamos por nenhum milagre, mas pela blasfêmia, porque Tu, mero homem, Te fazes Deus a Ti mesmo.[29]

    Responderam os judeus: Nós temos uma lei, e segundo essa lei ele deve morrer, porque se fez filho de Deus.[30]

    Voltando a João 8:

    Jesus respondeu: Se Eu Me glorifico a Mim mesmo, a Minha glória nada significa. Quem Me glorifica é Meu Pai, o qual vós dizeis que é vosso Deus. Vós não o conheceis, mas Eu O conheço. Se Eu dissesse que não O conheço, seria mentiroso como vós, mas Eu o conheço e guardo a Sua palavra.[31]

    Jesus afirmou que não estava glorificando a Si; mas isso não significava que não tenha recebido glória. Lembrou-lhes que Seu Pai é Deus e que foi Deus quem O glorificou. Uma vez que este é o mesmo Deus que Seus acusadores reivindicavam como deles, e porque o “Pai” glorificava o Filho, logicamente entende-se que eles também deveriam glorificar o Filho. No entanto, como não o fizeram, Jesus disse que não O conheciam. Foi a terceira vez que Jesus declarou que esses líderes judeus não conheciam o Pai.

    Eu não vim de Mim mesmo, mas Aquele que Me enviou é verdadeiro. Vós não O conheceis.[32]

    Então Lhe perguntaram: Onde está Teu Pai? Respondeu Jesus: Não Me conheceis, nem a Meu Pai. Se vós Me conhecêsseis, também conheceríeis a Meu Pai.[33]

    Ao contrário deles, Ele conhece o Pai. Ele então fez outra afirmação importante: Eu guardo a Sua palavra. Como Jesus guardava a palavra de Seu Pai é necessário que cumpramos a palavra de Jesus, pois a palavra de Jesus dá vida eterna e é a palavra do Pai.

    No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.[34]

    Jesus então voltou a falar de Abraão, que eles alegavam ser o pai espiritual deles.

    Vosso pai Abraão exultou por ver o Meu dia; viu-O e alegrou-se.[35]

    Em vez de se opor a Jesus, Abraão se alegrou no Seu “dia”. E se ele se alegrou, eles deveriam ter feito o mesmo. Os comentaristas da Bíblia apontam que este versículo levanta algumas questões difíceis. Primeiro, o que exatamente Jesus quer dizer com “Meu dia”? Segundo, quando Abraão “se alegrou” com a promessa de ver o dia de Jesus? Terceiro, quando e como finalmente aconteceu que “ele viu e ficou feliz”? Em vez de entrar em uma variedade de interpretações, nenhuma das quais é garantida, vou simplesmente citar o que um comentarista escreveu:

    No entanto, não podemos sentir confiança em nenhuma das propostas oferecidas [o possível evento na vida de Abraão ao qual isso poderia estar se referindo] e pode ser significativo que Jesus não se refira a nenhuma. Em outras palavras, Ele pode muito bem dizer que a atitude geral de Abraão até hoje foi de exultação, em vez de se referir a qualquer ocasião específica na vida do patriarca.[36]

    Disseram-lhe os judeus: Ainda não tens cinquenta anos, e viste Abraão?[37]

    Jesus provavelmente tinha trinta e poucos anos e Abraão havia morrido havia quase dois milênios. Aqueles que ouviram Jesus sabiam que era impossível que Ele pudesse ter visto Abraão e entenderam que isso significava que Jesus estava reivindicando a pré-existência. Jesus não estava fazendo essa afirmação, mas disse que Abraão viu o futuro (o próprio “dia” de Jesus), e sugeriu que Abraão ainda vive (não fisicamente, mas na vida após a morte). Jesus não foi quem trouxe à tona o tópico da pré-existência, mas como eles o fizeram, Ele o abordou em referência a Si mesmo.

    Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, Eu sou.[38]

    Outras traduções da Bíblia adicionam a palavra nascido para que se leia “antes que Abraão nascesse, eu sou!”[39] Esta foi uma declaração explícita da pré-existência de Jesus. “Em verdade, em verdade” é uma expressão que acrescenta peso à veracidade da afirmação.

    O uso de Jesus da frase Eu Sou foi significativo. Por todo o Antigo Testamento, o próprio Deus fez uma série de declarações “Eu Sou”.

    Disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós.[40]

    Vede agora que Eu sou, Eu somente, e não há outro Deus além de mim. Eu causo a morte, e restituo a vida; eu firo, e eu saro, e não há quem possa livrar das minhas mãos.[41]

    Quem operou e fez isto, chamando as gerações desde o princípio? Eu, o Senhor, o primeiro deles, e com os últimos, sou eu mesmo.[42]

    Vós sois as Minhas testemunhas, diz o Senhor, e o Meu servo, a quem escolhi, para que o saibais, e Me creiais, e entendais que Eu sou o mesmo, e que antes de Mim deus nenhum se formou, e depois de Mim nenhum haverá. Eu, eu sou o Senhor, e fora de Mim não há Salvador.[43]

    Dá-me ouvidos, ó Jacó, e tu, ó Israel, a quem chamei: Eu sou o mesmo, sou o primeiro, e também o último.[44]

    Quando Jesus afirmou “antes de Abraão nascer, eu sou!”, aqueles que ouviam sabiam exatamente o que Ele estava dizendo — era uma reivindicação de sua Divindade. Então pegaram em pedras para atirar nEle, mas Jesus se ocultou, e retirou-se do templo.[45]

    Quando Jesus foi pela primeira vez à Festa dos Tabernáculos, Ele foi também, não publicamente, mas em oculto.[46] Depois de falar publicamente no Templo durante todo o banquete, e ser confrontado com apedrejamento por reivindicar a Deidade afirmando EU SOU, somos informados de que, para evitar ser apedrejado até à morte por blasfêmia, Ele tomou medidas defensivas escondendo-Se e retirando-Se do Templo. Isso pôs fim às interações de Jesus com a liderança religiosa judaica durante a Festa dos Tabernáculos.


    Nota

    A menos que indicado o contrário, todas as referências às Escrituras foram extraídas da “Bíblia Sagrada” — Tradução de João Ferreira de Almeida — Edição Contemporânea, Copyright © 1990, por Editora Vida.


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    [1] João 8:39–40.

    [2] João 8:41–42.

    [3] João 8:43.

    [4] João 8:23.

    [5] João 8:42.

    [6] João 8:44.

    [7] João 8:16.

    [8] João 8:18.

    [9] João 8:28.

    [10] João 8:45.

    [11] João 8:46–47.

    [12] João 3:3.

    [13] João 1:13.

    [14] João 8:42.

    [15] João 8:48.

    [16] João 4:9.

    [17] 2 Reis 17:24–41.

    [18] João 4:22.

    [19] João 8:49.

    [20] João 5:23.

    [21] João 8:41.

    [22] João 8:50.

    [23] João 5:44.

    [24] João 7:18.

    [25] João 8:51.

    [26] João 11:25–26.

    [27] João 8:52–53.

    [28] João 5:18.

    [29] João 10:33.

    [30] João 19:7.

    [31] João 8:54–55.

    [32] João 7:28.

    [33] João 8:19.

    [34] João 1:1.

    [35] João 8:56.

    [36] Morris, The Gospel According to John, 419.

    [37] João 8:57.

    [38] João 8:58.(ACF)

    [39] João 8:58 NVI.

    [40] Êxodo 3:14.

    [41] Deuteronômio 32:39.

    [42] Isaías 41:4.

    [43] Isaías 43:10–11.

    [44] Isaías 48:12.

    [45] João 8:59.

    [46] João 7:10.

     

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