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  • A Parábola dos dois Devedores

    Por Peter Amsterdam

    [The Parable of the Two Debtors]

    A parábola dos dois devedores, também chamada por alguns de parábola do fariseu e da pecadora, é uma bela história de amor, misericórdia e gratidão. A parte propriamente alegórica da narrativa é muito breve: apenas dois versículos, inseridos no centro da ação e do diálogo, cercam a visita de Jesus e Sua refeição na casa de Simão, o fariseu. Embora curta, a parábola lança uma luz intensa sobre o perdão de Deus e sobre a resposta apropriada a esse perdão.

    A história, contada no Evangelho segundo Lucas (Lucas 7:41–42), começa assim: “Convidado por um dos fariseus para jantar, Jesus foi à casa dele e reclinou-se à mesa” (Lucas 7:36).

    Embora isso pareça um relato bastante direto do ocorrido, um dos elementos centrais da história é justamente o que não ocorreu. O costume da época determinava que, quando um convidado entrasse em uma casa, o anfitrião deveria saudá-lo com um beijo na face ou na mão. Em seguida, água e azeite de oliva seriam trazidos para que o convidado lavasse as mãos e os pés e, em alguns casos, o anfitrião ungiria a cabeça do visitante com o óleo. Nenhuma dessas cortesias foi estendida a Jesus por Simão, o que teria sido considerado uma violação deliberada do protocolo e das boas maneiras.

    Mais adiante na história, Simão chama Jesus de “Mestre”. Segundo escritos judaicos antigos, receber em casa um mestre ou um erudito era considerado uma honra. Tendo sido convidado à casa de Simão, o mínimo que Jesus poderia esperar era um beijo de saudação, um pouco de água para os seus pés e azeite de oliva para as mãos. Mas nada disso Lhe foi oferecido.

    Nesse ponto, Jesus poderia, legitimamente, ter dito: “Não sou bem-vindo aqui” e ido embora, irado. Mas não o fez. Embora a falta de hospitalidade de Simão fosse considerada uma afronta, Jesus acatou a ofensa e reclinou-Se à mesa, com as mãos e os pés por lavar.

    A cena seguinte então se desenrola: “Ao saber que Jesus estava comendo na casa do fariseu, certa mulher daquela cidade, uma ‘pecadora’, trouxe um frasco de alabastro com perfume, e se colocou atrás de Jesus, a seus pés. Chorando, começou a molhar-lhe os pés com as suas lágrimas. Depois os enxugou com seus cabelos, beijou-os e os ungiu com o perfume” (Lucas 7:37–38).

    A mulher, conhecida como pecadora, segundo o versículo, soube que Jesus comeria na casa de Simão naquele dia e, por isso, estava presente quando Jesus chegou. A interpretação mais amplamente aceita é que ela provavelmente era prostituta. Como foi que essa mulher teve permissão para estar presente à refeição na casa de Simão? Um autor explica:

    Nas tradicionais refeições das aldeias do Oriente Médio, os rejeitados da comunidade não são mantidos à margem. Eles se sentam em silêncio no chão, encostados à parede, e, ao final da refeição, são alimentados. Sua presença é um elogio ao anfitrião, que, assim, é visto como tão nobre que até alimenta os excluídos da comunidade. Os rabinos insistiam que a porta ficasse aberta enquanto a refeição estivesse em andamento, para que não “faltasse alimento” (isto é, para que não excluísse as bênçãos de Deus).1

    Ao que tudo indica, a mulher estava ali não como convidada, mas como uma daquelas pessoas autorizadas a observar a refeição. Mas por que ela estava ali? Muito provavelmente, porque já tinha ouvido Jesus falar e havia sido transformada por esse encontro. Embora isso não seja afirmado explicitamente na Bíblia, é uma inferência que se torna clara à medida que a história avança. Mais adiante, Jesus diz a Simão: “Desde que entrei aqui, ela não parou de beijar os meus pés”, o que mostra que ela já estava ali antes da chegada de Jesus, ou que chegou a tempo de presenciar a falta de cortesia com que foi recebido.

    A mulher talvez já tivesse ouvido falar que Jesus estava disposto a conviver com pecadores e O tivesse escutado falar sobre o perdão dos pecados, sobre o amor de Deus por ela e por outros como ela, e sobre como Sua graça estava disponível mesmo para os pecadores. Alegre por ter seus pecados perdoados, ela foi à casa de Simão para demonstrar sua gratidão a Quem lhe havia trazido essa boa notícia.

    Lemos que ela trouxe um frasco de alabastro com perfume. O alabastro é uma pedra macia, da qual se faziam pequenos recipientes para guardar óleo perfumado, que, na época, era muito caro. A mulher chegou preparada para ungir os pés de Jesus, como expressão de gratidão pelo que Ele havia feito por ela.

    Contudo, ao testemunhar a recepção fria e até insultuosa que Jesus recebeu de Simão, ela ficou profundamente triste. Simão não lavou os pés de Jesus, o que é um sinal evidente de que O considerava inferior. Nem sequer disponibilizou água para que Ele mesmo pudesse lavar os próprios pés. Nenhum beijo de saudação Lhe foi dado. Ao ver isso, a mulher chora. O que poderia fazer para compensar a evidente falta de hospitalidade demonstrada ao homem que havia mudado a sua vida?

    Ao olhar para os pés empoeirados de Jesus enquanto Ele estava reclinado à mesa, decidiu fazer o que Simão não fizera. Usou as próprias lágrimas para Lhe molhar os pés. Não tinha uma toalha para enxugá-los, então soltou os cabelos e os usou para secá-los. Depois, beijou-Lhe os pés. A palavra grega usada aqui para “beijar” significa “beijar repetidas vezes”; em outras palavras, ela cobriu os pés de Jesus de beijos. Já que Ele não havia recebido nenhum beijo de saudação, ela beijaria os Seus pés uma e outra vez, num sinal público de profunda humildade, devoção e gratidão.

    Os convidados do jantar ficaram chocados com essa demonstração! Para eles, aquilo estava errado em vários aspectos. Uma mulher soltar os cabelos é um gesto íntimo, que jamais seria feito diante de alguém que não fosse o próprio marido. Para piorar, ela estava tocando um homem que não era seu parente, algo que nenhuma mulher de princípios faria.

    Suas ações são consideradas escandalosas pelos presentes e típicas de uma mulher imoral. Eles não fazem ideia de que ela havia sido perdoada; enxergam nela apenas uma pecadora indigna. Não conseguem acreditar que Jesus permitisse que uma mulher de tão má reputação Lhe dispensasse esse tipo de tratamento.

    A história prossegue: “Ao ver isso, o fariseu que o havia convidado disse a si mesmo: ‘Se este homem fosse profeta, saberia quem nele está tocando e que tipo de mulher ela é: uma pecadora’”(Lucas 7:39).

    Apesar de ter sido exposto por suas falhas como anfitrião, Simão criticava Cristo em silêncio. Tendo ouvido Jesus pregar e ensinar, ele provavelmente se perguntava se Jesus seria, de fato, um profeta. Tudo indica que ele estava rejeitando essa possibilidade, porque, em sua mente, se Jesus realmente fosse profeta, saberia que a mulher que O tocava era imoral e, portanto, O estava contaminando.

    Talvez a intenção de Simão ao convidar Jesus para uma refeição fosse pô-Lo à prova, para ver se Ele era mesmo um profeta. Depois de testemunhar aquela cena e registrar mentalmente o que considerava uma profunda falta de discernimento, Simão provavelmente se convenceu de que Jesus não atendia ao padrão espiritual de um profeta de Deus.

    Mas ele estava errado. Jesus conhece o estado espiritual da mulher, pois, mais adiante, afirma que “os muitos pecados dela” foram perdoados. Ele também sabia que ela fora perdoada porque, pela fé, crera nas palavras sobre o perdão de Deus que O ouvira anunciar anteriormente. Além disso, Jesus demonstra ser profeta ao discernir os pensamentos de Simão, ainda que ele não os tenha verbalizado.

    “Então Jesus lhe disse: ‘Simão, tenho algo a lhe dizer’. ‘Dize, Mestre’, disse ele” (Lucas 7:40).

     “Tenho algo a lhe dizer” é uma expressão idiomática comum no Oriente Médio que significa ir direto ao assunto e falar algo que a outra pessoa talvez não queira escutar. É nesse ponto da narrativa que Jesus conta a breve parábola dos dois devedores.

    “Dois homens deviam a certo credor. Um lhe devia quinhentos denários e o outro, cinquenta. Nenhum dos dois tinha com que lhe pagar, por isso perdoou a dívida a ambos. Qual deles o amará mais?” (Lucas 7:41–42).

    Um denário equivalia ao pagamento normal por um dia de trabalho. Portanto, um dos devedores da parábola devia ao credor o equivalente a 500 dias de salário, e o outro, a 50 dias de salário — claramente uma grande diferença. O credor cancela generosamente ambas as dívidas quando os devedores não têm condições de pagar.

    Ao longo de todo o Novo Testamento, o verbo “perdoar” é usado tanto no sentido financeiro, como perdoar uma dívida, quanto no sentido religioso, como no perdão dos pecados. Jesus falava em termos de dívida financeira na parábola, mas, como veremos, neste caso, credor e devedor é usado em referência a Deus e ao perdão que Ele nos concede.

    À pergunta sobre quem amaria mais aquele que lhe perdoou a dívida, Simão respondeu: “‘Suponho que aquele a quem foi perdoada a dívida maior’. ‘Você julgou bem’, disse Jesus” (Lucas 7:43).

    Simão, percebendo que caíra em uma espécie de armadilha verbal, responde de maneira reticente com um “suponho”. A moral da parábola é que o amor é a resposta correta à graça, ao favor imerecido; quem foi perdoado da maior dívida amará mais e demonstrará maior gratidão. Tendo estabelecido esse ponto, Jesus dirige a Simão uma fala contundente.

    “Em seguida, virou-se para a mulher e disse a Simão: ‘Vê esta mulher? Entrei em sua casa, mas você não me deu água para lavar os pés; ela, porém, molhou os meus pés com suas lágrimas e os enxugou com seus cabelos. Você não me saudou com um beijo, mas esta mulher, desde que entrei aqui, não parou de beijar os meus pés. Você não derramou óleo sobre a minha cabeça, mas ela derramou perfume sobre os meus pés. Portanto, eu lhe digo, os muitos pecados dela lhe foram perdoados, pois ela amou muito. Mas aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama’” (Lucas 7:44–47).

    Essas palavras foram dirigidas a Simão, mas Jesus olhou para a mulher enquanto as pronunciava. Quando perguntou: “Simão, vê esta mulher?”, tentava levar Simão a enxergá-la como pessoa, não como pecadora, mas como alguém que havia perdoado por muitos pecados e, por isso, amava muito e demonstrava esse amor e essa gratidão por meio de suas ações. Jesus queria que Simão percebesse e aceitasse que os pecados dela haviam sido perdoados e que ela podia ser aceita de volta na comunidade, não mais como pecadora, mas como filha de Deus.

    Jesus verbalizou as falhas de Simão e contrastou suas omissões com as nobres ações da mulher — ações que iam muito além do que Simão deveria ter feito. Então Jesus vinculou o grande amor dela à multidão de pecados que lhe haviam sido perdoados.

    “Então Jesus disse a ela: ‘Seus pecados estão perdoados’” (Lucas 7:48).

    Ele não disse que os pecados dela foram perdoados naquele exato momento, mas sim que os havia perdoado. O amor que ela demonstrara e sua profunda gratidão eram uma resposta ao perdão que havia recebido ao ouvir Jesus falar anteriormente. Saber que Deus, em Sua graça, perdoa o pecado, mesmo quando o pecador não é digno, trouxe-lhe grande alegria e liberdade.

    Os outros convidados à mesa perderam completamente o ponto principal. Estavam focados na coisa errada e interpretaram mal o que Jesus disse. “Os outros convidados começaram a perguntar: ‘Quem é este que até perdoa pecados?’” (Lucas 7:49).

    Embora Jesus realmente tenha perdoado os pecados de pessoas ao longo dos Evangelhos — algo que os líderes religiosos consideravam blasfêmia —, Ele não estava perdoando os pecados da mulher naquele momentom pois já haviam sido perdoados.

    “Jesus disse à mulher: ‘Sua fé a salvou; vá em paz’” (Lucas 7:50).

    Foi a fé dela que a salvou. Ela creu na graça de Deus e a aceitou. Sabia que não a merecia. Seus pecados eram muitos, e não havia nada que pudesse fazer para merecer a salvação. Ela creu e aceitou o que o Senhor lhe dissera — que sua fé, sua crença e sua aceitação eram suficientes.

    É assim que a história termina. Não há indicação quanto à resposta de Simão. Será que ele entendeu a mensagem? Será que compreendeu que ele também era um devedor — um pecador necessitado do amor e do perdão de Deus? Será que aceitou que a mulher havia sido perdoada e transformada, pelo que ele deveria recebê-la de volta na comunidade? Essas perguntas não são respondidas, então resta ao leitor refletir e tirar suas próprias conclusões.

    Ao pensar no que aconteceu na casa de Simão, surgem perguntas sobre como aplicar isso à nossa própria vida: como respondemos ao Senhor e como tratamos os outros? Continuamos respondendo com gratidão e ações de graças pela nossa própria salvação, louvando e agradecendo a Deus por nossa redenção? Pensamos no que custou a Jesus levar sobre Si o castigo pelos nossos pecados? Ou será que perdemos a alegria e o assombro da nossa salvação?

    Olhamos para os outros da maneira como Jesus olhava, reconhecendo que Ele morreu por eles e deseja que recebam seu dom da salvação? Em gratidão pela dívida que nos foi perdoada, somos motivados a ajudar outros a encontrarem o mesmo perdão? — A amá-los, falar com eles, dar de nós mesmos, do nosso tempo, do nosso esforço e da nossa energia para levá-los à salvação, não importa quem sejam? — Os pobres, os ricos, os jovens, os idosos, os sem instrução, os intelectuais, os pouco amáveis, os amáveis, os pecadores, os piedosos, os excluídos, os aceitos? Jesus busca salvá-los. Estamos fazendo a nossa parte para que isso aconteça?

    Todos fomos perdoados de muitas coisas. Devemos, portanto, amar muito e compartilhar esse amor com os outros.

    Publicado originalmente em julho de 2013. Adaptado e republicado em abril de 2026.


    1 Kenneth E. Bailey, Jesus Through Middle Eastern Eyes (InterVarsity Press, 2008), 246 nota de rodapé 15.

  • Abr 10 Como renovar sua mente e transformar sua vida
  • Abr 7 Por que nossos pensamentos importam
  • Abr 6 Fazendo discípulos de novos convertidos
  • Abr 3 Reflexões Sobre a Sexta-feira Santa
  • Abr 1 A Conversão de um Procônsul Romano
  • Mar 31 As Testemunhas Oculares
  • Mar 30 A Ressurreição de Jesus—2ª Parte
  • Mar 25 Salvo por um folheto
  • Mar 23 A Ressurreição de Jesus — 1ª Parte
   

Espaço dos Diretores

Estudos bíblicos e artigos para edificação da fé

  • A Vida de Discipulado, 9ª Parte: Discipulando

    [The Life of Discipleship, Part 9: Discipling Others]

    Em Sua Grande Comissão aos discípulos, antes de ascender ao céu, Jesus os incumbiu de evangelizar e fazer discípulos. “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu ordenei a vocês" (Mateus 28:19–20). Nós também, na qualidade de discípulos, somos chamados a fazer seguidores e ensinar a fé cristã para que eles cresçam na vida de discipulado.

    Ensinar sobre Jesus e ajudar as pessoas a crescer na fé é essencial para a continuidade da fé e do cristianismo. Jesus passou cerca de três anos ensinando aos Seus seguidores e preparando-os para continuar a Sua obra e propagar a fé após a Sua morte e ressurreição. Se não tivessem sido diligentes em “ensinar a outros” (2 Timóteo 2:2), a mensagem do Evangelho teria desaparecido ainda na sua geração. Discipular e ensinar são centrais do discipulado e da preservação da fé.

    Há uma diferença entre pregar o Evangelho e ensinar. A palavra grega usada no Novo Testamento para “pregar” significa publicar, proclamar abertamente. Já a que se traduz para “ensinar” tem como algumas definições: instruir, orientar, doutrinar. Ao longo do Seu ministério, Jesus fez as duas coisas: pregou e ensinou. Lemos em Mateus 11:1: “Depois que terminou de instruir seus doze discípulos, Jesus saiu para ensinar e pregar nas cidades da Galileia”.

    Jesus proclamou as Boas Novas e ensinou às multidões, mas também a individualmente, como vemos nas histórias de Nicodemos (João 3:1–12) e da samaritana junto ao poço (João 4:7–30). Declarou que a Sua missão era proclamar o reino de Deus: “É necessário que eu pregue as boas novas do Reino de Deus... porque para isso fui enviado” (Lucas 4:43). Por meio dos Seus ensinamentos em diferentes situações e contextos Jesus discipulou e ensinou aqueles que, por sua vez, fizeram discípulos que ensinaram a outros, em um processo em cadeia, uma pessoa de cada vez, ao longo dos séculos desde então.

    O primeiro passo para o discipulado é proclamar as Boas Novas e guiar as pessoas à fé em Jesus. Ajudar alguém a crescer na fé e no discipulado é um passo além e importante para fortalecer o novo convertido e sua caminhada espiritual. A base de todo o avanço e crescimento do cristianismo no mundo é resultado do trabalho de divulgar a fé e fazer discípulos que também compartilharão sua fé e farão outros discípulos.

    A evangelização e o discipulados são fundamentais ao crescimento e continuidade do cristianismo. A menos que os crentes proclamem as Boas Novas e ajudem os demais a crescer na fé e a aderir na Grande Comissão, não cumpriremos nossa vocação de ser a luz do mundo (Mateus 5:14).

    O que significa “discipular” alguém? Estes trechos de diferentes artigos ajudam a entender esse conceito:

    O discipulado é um relacionamento intencional com outros discípulos, para encorajarem, capacitarem e desafiarem uns aos outros em amor a crescer e amadurecer em Cristo. Parte disso é também capacitar o discípulo para ensinar outros.Greg Ogden1

    Discipulado é uma palavra bastante usada com um significado simples: ajudar deliberadamente uns aos outros a crescer em conformidade com Jesus. Discipular é uma ação deliberada, porque busca ajudar pessoas específicas a crescer de maneiras específicas rumo à virtude espiritual. O discipulado é mútuo porque não é uma relação unidirecional em que há um mestre de um lado e um aprendiz do outro. Todos os cristãos precisam de formação espiritual e é dotado pelo Espírito para edificarem-se uns aos outros (Judas 1:20; Efésios 4:12; 1 Pedro 2:5).

    Não é preciso ser um “guru” do discipulado. Basta estar disponível. Não é preciso ser um teólogo. Basta ser um instrumento que dispense a graça de Jesus a outros discípulos. Fazer discípulos é um trabalho para o seguidor de Jesus comum e imperfeito que foi comprado com Seu sangue. Então, cristão, comprometamo-nos a discipular uns aos outros!—Tony Shepherd2

    Para discipular, não é preciso ser um talentoso professor da Bíblia ou profundo conhecedor da doutrina cristã. Discipular se traduz em fazer o que estiver ao seu alcance para ajudar as pessoas ao longo do caminho e ser um exemplo de Cristo. Nem todos sabem ensinar, mas devemos todos aprender a falar da nossa fé em Deus e do Seu amor, de maneira a ajudar as pessoas a crescerem no entendimento de jesus, da salvação e dos fundamentos da fé cristã. Para isso, é possível estudar a Bíblia ou outra literatura cristã com alguém para ajudar a outra pessoa a crescer na fé.

    Você talvez não saiba responder a todas as perguntas de um novo convertido ou de uma pessoa passando por uma fase de questionamento da fé, mas pode ajudá-la a buscar respostas na Bíblia ou nos ensinamentos de professores bons e talentosos. Você pode também compartilhar sua experiência pessoal e as lições que aprendeu no seu relacionamento com o Senhor. Além disso, se orar com alguém, estará também ensinando à pessoa a orar e clamar as promessas na Bíblia.

    O discipulado é um projeto de vida, uma transformação gradual para nos tornarmos na imagem de Cristo “com glória cada vez maior” (2 Coríntios 3:18). O trabalho de discipular não implica em acompanhar e guiar a pessoa em todas as etapas da vida de fé, mas sim dividir sua experiência e fé e direcioná-la ao Senhor e à Sua Palavra. O objetivo é aproveitar o tempo que passa com ela para ajudá-la a  aprender mais sobre Deus, a amadurecer no relacionamento com Ele e fortalecer sua fé.

    Discipular não é ministrar uma aula. Dependendo da situação, pode ser um momento de comunhão espiritual ou esclarecer alguma dúvida. Às vezes, pode ser orar com a pessoa num momento difícil e ajudá-la a encontrar respostas. E outras vezes pode ser acompanhá-la nas perdas e tragédias, refletindo o amor e o consolo do amor de Cristo.

    Jesus despendeu bastante tempo discipulando Seus convertidos. São os discípulos que propagam e perpetuam a fé. Como o objetivo é fazer discípulos de todas as nações, discipular é uma função essencial dentro da Grande Comissão. Discipular e ensinar resulta em cristãos mais fortes, que crescem conforme são ensinados e alicerçados na fé, na compreensão dos fundamentos cristãos, no sentir a presença de Jesus e no desenvolvimento de uma relação mais próxima com Ele.

    Multiplicando discípulos

    Desde o início do cristianismo, a efusão do novo convertido sempre gerou mais discípulos para a causa de Cristo. “Sigam-me e eu os farei pescadores de homens” (Mateus 4:19). Jesus prometeu que transformaria Seus discípulos em fazedores de discípulos. E ordenou a cada um deles a sair e fazer discípulos de todas as nações, batizando-os e ensinando-lhes a obedecer a Deus (Mateus 28:19–20). Desde o início, Seu propósito para cada discípulo foi que cada um fizesse mais discípulos capazes de, por sua vez, também discipular,  para que o Evangelho fosse difundido entre todos os povos.

    O plano de Deus é que todo o Seu povo conheça Sua alegria ao compartilhar Seu amor, espalhar Sua Palavra e multiplicar Sua vida entre todos os povos da terra. Esse é o grande propósito para o qual fomos criados: desfrutar da graça de Cristo enquanto espalhamos o Evangelho de Cristo onde quer que vivamos e até os confins da terra. Vale a pena dedicar a vidas para ver esse propósito realizado. Vale a pena para bilhões de pessoas que ainda não conhecem a misericórdia e a majestade de Deus em Cristo. E vale a pena para você e para mim, porque fomos feitos para sermos discípulos que fazem discípulos até o dia em que vermos o rosto daquele que seguimos, e junto com todas as nações experimentamos Sua satisfação por toda a eternidade. —Francis Chan & Mark Beuving3

    Instrumentos da transformação por meio do Evangelho

    Após Sua ressurreição, próximo do fim do Seu ministério na terra, Jesus deu ao Seus discípulos a incumbência que conhecemos com a Grande Comissão, uma declaração com profundas consequências.

    “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu ordenei a vocês. E lembrem-se: estou sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mateus 28:19–20).

    Vão. Façam discípulos. Batizem. Ensinem. Inspirem.

    Verdadeiramente, nada desfaz a dureza de um mundo deteriorado mais rápido do que o calor de uma pessoa discipulando outra; duas discipulando duas; quatro discipulando quatro; produzindo novos crentes maduros que se espalham como o fogo.

    Esse crescimento espiritual e esse esforço entre o povo de Deus, principalmente junto aos novos cristãos entusiasmados, enche a igreja de insurgentes treinados biblicamente. O seu maior desejo, acima do seu fervor por encontrar os filhos perdidos de Deus é encontrar e alimentar Seus filhos.—Ed Stetzer4

    Deus nos chama para proclamar o Evangelho, compartilhar o Seu amor e verdade e ajudar as pessoas a crescer no discipulado. Mas onde, como e para quem cumprimos a Grande Comissão depende de onde Deus nos coloca, das condições que nos propiciou e das pessoas que coloca no nosso caminho. Podemos compartilhar as boas novas e discipular novos convertidos no nosso bairro, entre as pessoas da nossa comunidade, local de trabalho e universidade, num campo missionário estrangeiro, numa organização sem fins lucrativos—onde Deus permitir que estejamos. O próprio Jesus nos incumbe de trazer outros ao discipulado. Discípulos fazem discípulos.

    O discipulado não é um relacionamento formal. É amizade. Jesus chamou aqueles que estava discipulando de amigos: “Eu os chamei amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu lhes tornei conhecido” (João 15:15). O aspecto da amizade é muito importante! Existem várias maneiras práticas de criar momentos que conduzam à amizade com as pessoas para quem testemunhamos e as quais discipulamos. Pode convidá-las para um café, recebê-las para jantar, fazer uma caminhada, ou montar um grupo de oração ou um pequeno grupo de estudo bíblico.

    Quando acompanhamos alguém na sua caminhada espiritual, o nosso papel é ajudar a pessoa a criar um relacionamento mais profundo com Deus. Os seguintes trechos de artigos expressam bem esse princípio:

    Discipular com amizade

    Fazer discípulos não é uma atividade apenas para a chamada elite espiritual; é a tarefa de cada discípulo (Mateus 28:18–20). Discípulos fazem discípulos.

    Devemos nos lembrar que Jesus chamou Seus discípulos de amigos (João 15:12–15). Isso é surpreendente. Na cruz, a ira de Deus caiu sobre o Filho, para que pudéssemos nos tornar amigos de Deus. Quando o Filho de Deus nos chamou para o discipulado, convidou-nos para sermos amigos. Vivenciar o discipulado significa vivenciar a amizade com Jesus por meio Sua Palavra, da oração e do Seu povo (João 15:7–11). Fazer discípulos, então, significa convidar outros para o círculo de amizade com Jesus. Devemos nos perguntar: Como posso ajudar esta pessoa a conhecer e amar mais a Jesus?

    Muitas vezes, discipular significa apenas estar presente: acompanhar alguém na oração durante uma reunião; falar sobre o que aprendeu no sermão; cantar alto o suficiente para encorajar as pessoas ao seu redor, mesmo que você não seja muito afinado. Significa ser um exemplo de Cristo e convidar outros a viver essa mesma vida. Em última análise, o crescimento espiritual da outra pessoa é obra de Deus, já que não temos a capacidade natural de fazer discípulos (1 Coríntios 3:6–7). Não precisamos ser a fonte de toda a sabedoria espiritual ou graduados em Teologia com anos de experiência no ministério. Fazer discípulos é simplesmente ajudar outros a cultivar uma amizade com Jesus, compartilhando o que aprendemos pela Palavra e sendo um exemplo de alguém que é amigo de Jesus.—Quina Aragon5

    A vida espiritual é como uma jornada. Cada um de nós está em um estágio. O Senhor pode chamá-lo para caminhar ao lado de alguém por um tempo, para transmitir o Seu amor, verdade e Palavra e estarem juntos. Você pode estar semeando ou regando, ajudando a pessoa a seguir na direção do discipulado ou a crescer no discipulado se ela estiver no ponto em que deseja assumir um compromisso maior com Deus. Você estará lá para ajudar, dar conselhos se lhe pedir, compartilhar os princípios de Deus e ajudar a pessoa a entender Sua Palavra e Seus caminhos. Estará disponível para encorajar, apoiar e para fazer companhia na jornada de discipulado da pessoa.

    Ensinar e discipular leva tempo. Mas ainda que apenas uma pessoa se torne discípula, valeu o tempo dedicado. Temos a tendência de julgar nosso sucesso em discipular com base no número de pessoas que estamos ajudando nessa jornada, mas essa não é uma métrica adequada. Cabe a nós apenas fazer o que Deus nos pede, testemunhar, discipular aqueles que Ele coloca no nosso caminho, orar e confiar que o Espírito Santo agirá em suas vidas.

    Francisco de Assis disse certa vez: “De nada adianta sair para pregar, se a caminhada até o local não for a nossa pregação”. Nossa força e motivação para compartilhar Jesus com outros começam com o nosso amor por Ele e nosso relacionamento com Ele. A capacidade do cristão de viver a vida de um discípulo, testemunhar e discipular outros resulta de cumprir o que Deus pede aos discípulos: viver segundo a Sua Palavra e seguir o exemplo de Jesus. (Veja as partes 1–4 da série A Vida do Discipulado.) Primeiro é preciso amar Jesus e seguir os Seus princípios, além de ter a convicção, a iniciativa e o desejo de testemunhar e proclamar as Boas Novas, e de participar do processo de fazer discípulos.

    Cada um de nós tem alguma oportunidade, alguma rede de relacionamento, algum meio de se conectar com outros e fortalecer a sua fé, a sua esperança e o seu espírito, vivendo o nosso discipulado e trazendo princípios de discipulado para os nossos relacionamentos. O próprio Jesus nos comissionou a fazer discípulos. Como seguidores de Jesus, nós amamos, cremos e seguimos os Seus ensinamentos e ajudamos a divulgá-los. Divulgamos a Palavra de Deus e ajudamos e ensinamos outros a amadurecer no discipulado.

    Para refletir

    Todo cristão deve ajudar os incrédulos a se tornarem crentes, por meio do seu exemplo de Cristo. Isso é fazer discípulos. E todo cristão deve ajudar outros crentes a amadurecer. Isso é fazer discípulos.—John Piper

    Discípulos multiplicam. Uma das últimas coisas que Jesus disse aos discípulos antes da Sua ascensão foi o mandamento de “irem e fazerem discípulos de todas as nações” (Mateus 28:19). Isso envolve evangelizar, compartilhar o evangelho e instar as pessoas a se arrependerem e crerem em Cristo, mas também envolve discipulado. Os cristãos devem estar engajados em ensinar a pessoas que, por sua vez, ensinarão aos outros. Esse é o padrão que vemos no ministério de Jesus: Ele capacitou onze homens que passaram o resto das suas vidas fazendo discípulos, capacitando os outros para também fazerem discípulos e assim por diante.—Got Questions6

    Quando nos tornarmos à Sua semelhança, outros verão Jesus em nós e conhecerão o poder que destrói medos e dúvidas e lhes dá esperança. Em 1 Coríntios 11:1, o apóstolo Paulo exorta: “Tornem-se meus imitadores, como eu o sou de Cristo”. Não há melhor modelo para fazer discípulos do que Jesus! Ele ensinou Seus seguidores a discipular outros, sendo Ele próprio o exemplo.—Shawn D. Anderson

    O que a Bíblia diz

    “Este evangelho está frutificando e crescendo em todo o mundo, como também ocorre entre vocês, desde o dia em que o ouviram e entenderam a graça de Deus em toda a sua verdade” (Colossenses 1:6).

    “O discípulo não está acima do seu mestre, mas todo aquele que for bem-preparado será como o seu mestre” (Lucas 6:40).

    “Deus quis dar a conhecer entre os gentios a gloriosa riqueza deste mistério, que é Cristo em vocês, a esperança da glória. Nós o proclamamos, advertindo e ensinando a cada um com toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo” (Colossenses 1:27–28).

    Uma oração

    Pai celestial, eu Lhe agradeço por me dar a oportunidade de fazer discípulos em Cristo Jesus. Ajude-me, a cada passo a amar Você e as pessoas que cruzarem o meu caminho... Não permita que eu perca as emoções que Você colocar no meu caminho para eu viver e divulgar as Boas Novas sobre Jesus. Ajude-me a estar perto de Você e a fazer amizade com as pessoas que Você deseja como discípulas. Pelo poder da Sua Palavra e do Seu Espírito, transforme-me num seguidor de que ama Você, ama as pessoas e faz discípulos. Em nome de Jesus, amém.7


    1 Greg Ogden, Transforming Discipleship (InterVarsity Press, 2016).

    2 Tony Shepherd, “Disciple Others,” 9Marks.org, 30 de março de 2021, https://www.9marks.org/article/disciple-others/.

    3 Francis Chan e Mark Beuving, Multiply: Disciples Making Disciples (David C. Cook, 2012).

    4 Ed Stetzer, Subversive Kingdom: Living as Agents of Gospel Transformation (B&H Publishing Group, 2012).

    5 Quina Aragon, “But I’ve Never Been Discipled,” The Gospel Coalition, 8 de agosto de 2020, https://www.thegospelcoalition.org/article/never-been-discipled/.

    6 “What is Christian Discipleship,” GotQuestions.org, https://www.gotquestions.org/Christian-discipleship.html.

    7 “Disciplemaker’s Prayer,” Cadre Missionaries, https://www.cadremissionaries.com/disciplemakers-prayer.

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  • Mar 3 1 Coríntios: Capítulo 15 (versículos 37–58)
  • Fev 17 A Vida de Discipulado, 8ª Parte: Compartilhando a Fé
  • Fev 3 1 Coríntios: Capítulo 15 (versículos 20–36)
  • Jan 20 A Vida de Discipulado, 7ª Parte: Servir a Deus Servindo ao Próximo
  • Dez 16 1 Coríntios: Capítulo 15 (versículos 1–19)
  • Dez 2 A Vida de Discipulado, 6ª Parte: Amor pelos Outros
  • Nov 11 1 Coríntios: Capítulo 14 (versículos 26–40)
  • Out 28 A Vida de Discipulado, 5ª Parte: Buscar primeiro o Reino de Deus
  • Out 14 1 Coríntios: Capítulo 14 (versículos 1–25)
   

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1 e 2 Tessalonicenses
Um estudo das epístolas de Paulo aos tessalonicenses e a aplicação desses ensinamentos no mundo atual.
Vamos à Essência de Tudo
Uma série de ensaios tratando dos princípios da fé e doutrina cristãs.
A Prática do Cristianismo
Como aplicar os ensinamentos da Bíblia ao nosso cotidiano e decisões diárias.